01/05/2012

FREUD: O MAL-ESTAR NA CULTURA (1930)



FREUD (1930). O Mal-estar na cultura
Com enfase a:
·         Sentimento de desamparo
·         Religião
·         Sublimação

INTRODUZINDO O TEMA
            Para Freud, a religião é apenas um dos aspectos da cultura. Em sua obra intitulada O Mal Estar na Cultura (FREUD, 1930), ele retrata que há um tipo de mal-estar presente na cultura que, segundo o pai da psicanálise, não provém de um agente externo e por isso não se resolve com mais cultura.
            O Mal-Estar na Cultura foi escrito após outro trabalho: O Futuro de uma Ilusão (FREUD, 1929), texto que remete, especificamente, ao papel da religião na vida e na sociedade, do ponto de vista da psicanálise. Esse ensaio de Freud, sobre o mal estar na cultura, trata de um mal estar que nos acompanha “ab initio”, ou seja, sempre esteve conosco não configurando uma proposta de apresentar um tempo que foi bom, primoroso de se viver e que por algum motivo estranho a nossa vontade, se tornou um viver difícil, arriscado.
            Em O Mal Estar na Cultura, Freud se empenha em explorar o que seria esse mal estar, e ele mesmo traz o significado desse sentimento. Diz o autor que há uma lástima por sentir-se desamparado, o que faria o sujeito partir na busca de algo, ou alguém que satisfizesse essa angústia que o limita a ponto de formar-lhe uma ferida narcísica. Assim, esse é um desamparo pela perda do pai (Totem e Tabu, 1932), em que "Tabu" refere-se ao misterioso, ao que é proibido, e "Totem" revela a demanda de proteção que evitaria a quebra dos tabus. Freud tem o cuidado de revelar que somente a partir daí é possível articular esse sentimento de abandono com a fé religiosa.
            Há no ser humano o desejo de felicidade plena e, portanto, completa exclusão do sofrimento (necessidades pulsionais), através das drogas, da arte, que são algumas das formas utilizadas, para o enfrentamento da angústia muitas vezes inominável na existência humana, devendo ser vivenciada de maneira a não se afastar da realidade.
            Freud se vale da cultura que serve para inibir a libido mas, menciona seu valor unilateral, pois não dá conta de inibir na sua totalidade. Assim, remete a parte moral da psique -  o supereu -  para  explicar a trajetória humana em se adequar às normas civilizatórias.
             Interessante é mencionar o pensamento de Herbert Marcuse (filósofo, 1898-1979), que em constante diálogo com a teoria psicanalítica, reflete acerca da impossibilidade quanto a felicidade do ser humano, visto que, conforme  esta teoria, o trabalho na sociedade burguesa não é prazeroso, pois  é sentido como valor socialmente útil, causador de repressão do princípio do prazer. Ou seja, evita a plena satisfação pessoal. No entanto, esse filósofo percebe haver uma racionalização quando as necessidades do sujeito contemporâneo, do que seria uma sociedade mercantilista e quantificadora: é necessário entender o que necessitamos.


Resumo (com algumas pontuações).
Capitulo II
Para Freud, em O Mal Estar na Cultura (1930)
A religião sabe responder a pergunta sobre a finalidade da vida [...] O que exigem da vida, o que nela querem alcançar? É difícil errar a resposta: eles aspiram à felicidade [...] ausência de dor e desprazer [...] a vivencia de sensações intensas de prazer.
Como se percebe, o que estabelece a finalidade da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. Esse princípio comanda o funcionamento do aparelho psíquico desde o início. Não cabe dúvida quanto à sua conveniência, e, no entanto, seu programa está em conflito com o mundo inteiro. Ele é absolutamente irrealizável. É possível apenas como fenômeno episódico [...] somos feitos de tal modo que apenas podemos gozar intensamente o contraste e somente muito pouco o estado. [...] nossas possibilidades de felicidade já são limitadas pela nossa constituição. [...] Muito menores são os obstáculos para experimentar a infelicidade. O sofrimento ameaça de três lados: a partir do próprio corpo, que, destinado à ruína e à dissolução, também não pode prescindir da dor e do medo como sinais de alarme; a partir do mundo externo que pode se abater sobre nós com forças superiores, implacáveis e destrutivas e, por fim, das relações com os outros seres humanos. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez seja sentido de modo mais doloroso que qualquer outro; [...] A satisfação ilimitada de todas as necessidades se destaca como a forma mais atraente de conduzir a vida, mas isso significa antepor o gozo à cautela, algo que recebe seu castigo após breve exercício. Os demais métodos, em que evitar o desprazer é a meta predominante, distingue-se de acordo com a fonte de desprazer à qual dão maior atenção [...] A proteção mais imediata contra o sofrimento que pode resultar das relações humanas é a solidão voluntária, o distanciamento em relação aos outros. Compreende-se: a felicidade que se pode alcançar por esse caminho é a da quietude. Contra o temido mundo externo não é possível defender-se senão por alguma espécie de afastamento, caso se queira resolver essa tarefa por si mesmo. Há, todavia, um caminho diferente, e melhor: na condição de membro da comunidade humana, passar a atacar a natureza e submetê-la à vontade humana com a ajuda da técnica guiada pela ciência [...] todo sofrimento é apenas sensação, existe apenas na medida em que o percebemos, e apenas o percebemos em conseqüência de certas disposições de nosso organismo. O método mais grosseiro, mas também o mais eficaz de se obter tal influência é o químico, a intoxicação. Não creio que alguém tenha percebido o seu mecanismo,mas o fato é que existem substancias estranhas ao corpo,cuja presença no sangue e nos tecidos, nos proporciona sensações imediatas de prazer, além de modificar de tal modo as condições de nossa vida perceptiva a ponto de nos tornarmos incapazes de perceber sensações de desprazer.
Há outro procedimento mais enérgico e radical que considera que o único inimigo é a realidade, a qual seria a fonte de todo sofrimento e com a qual não se pode conviver, sendo, por isso, preciso cortar todas as relações com ela caso se queira ser feliz em algum sentido [...] Em regra, não alcançará coisa alguma quem segue esse caminho para a felicidade com revolta desesperada. A realidade é demasiado forte para ele. Afirma-se, porém, que cada um de nós se comporta, em algum ponto, de maneira semelhante ao paranóico, corrigindo um aspecto insuportável da realidade por meio de uma formação de desejo e introduzindo esse desejo na realidade [...] Precisamos caracterizar também as religiões da humanidade como delírios coletivos desse tipo. E quem toma parte no delírio obviamente nunca o reconhece como tal [...] orientação da vida que toma o amor como centro, que espera toda satisfação do fato de amar e ser amado. Semelhante orientação psíquica é bastante compreensível a todos nós; uma das manifestações do amor, o amor sexual, nos proporcionou a mais intensa experiência de uma sensação avassaladora de prazer, fornecendo-nos, assim, o modelo de nossas aspirações de felicidade. O que é mais natural do que persistirmos em buscar a felicidade na mesma via em que pela primeira vez a encontramos? O ponto fraco dessa técnica de vida é bem evidente; caso contrário, ninguém teria pensado em trocar esse caminho para a felicidade por outro. Jamais estamos tão desprotegidos contra o sofrimento do que quando amamos. Jamais estamos tão desprotegidos contra o sofrimento do que quando amamos, jamais nos tornamos tão desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou o seu amor. Contudo, isso não esgota a técnica de vida baseada no valor de felicidade do amor. Há muito mais a dizer a respeito. [...] a felicidade de viver é buscada sobretudo na felicidade da beleza onde quer que ela se mostre aos nossos sentidos ao nosso juízo.
Freud inicia o capitulo três coma indagação para a dificuldade de saber porque é tão difícil para a humanidade ser feliz.
É mencionado novamente de onde provém as três fontes do nosso sofrimento que são: o poder da natureza, a fragilidade do corpo humano e as regras necessárias para a convivência entre os humanos na família, no Estado e na Sociedade.
Com relação a primeira fonte nunca a humanidade irá dominar por completo a natureza, quanto ao corpo que por sinal faz parte dessa natureza é finito e com limitada capacidade de adaptação e realização. O que Freud aponta é que se não podemos afastar todo o sofrimento, podemos afastar um pouco e nos contentar -de certo modo - com esta situação. E quanto a terceira fonte mostrar algo diferente. Não admitimos que não possa perceber por que as regras estabelecidas por nós mesmos não apresentam, ao contrário, proteção e benefício para cada um de nós. Estas disposições para regulamentar à convivência contra o sofrimento, mas não temos como escapar acabamos sofrendo com as restrições dessas regras.
Existe ainda outro ponto que a humanidade se depara: Há alguma coisa na nossa natureza que é invencível para ser domada e que está na nossa constituição psíquica.
Freud também aponta à cultura como também responsável pelo sofrimento humano. A cultura é criada para nos fazer felizes, mas ela se volta contra nós. Segundo Freud é a cultura que nos faz neuróticos, felicidade e prazer não é permitido, dessa forma é gerado sofrimento. Existe algo que barra a pulsão, precisamos renunciar a felicidade individual para conseguir conviver com as pessoas e dessa maneira sermos felizes.
É uma repetição: surgem os problemas, eles são amenizados, e o que esperamos de fato não acontece.
Um outro ponto apresentado por Freud coloca o Cristianismo como instituição que vem para frear os pagãos, barrando  e exigindo um comportamento de renúncia da felicidade.
“Enfim, de que nos vale uma vida longa quando ela se revela estéril em alegrias, e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida como libertação”

Resumo capts. III
Nesse parte do texto, Freud inicia dizendo que:
            [...] os primeiros feitos culturais foram o uso de ferramentas, a domesticação do fogo (1) e a construção de moradias [...] com todas as suas ferramentas, o homem aperfeiçoa os seus órgãos – tanto os de motilidade quanto os de sensibilidade, ou remove as barreiras para sua operação [...] O que o homem produziu através de sua ciência e de sua técnica neste planeta, em que surgiu de inicio na condição de uma débil criatura animal e em que cada individuo de sua espécie tem de ingressar outra vez na condição de bebê desamparado, não soa apenas como um conto de fadas, mas é a verdadeira realização de quase todos – os desejos dos contos de fadas. Todo esse patrimônio pode ser considerado pelo homem como uma aquisição cultural. Em tempos remotos, ele formou um ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. A eles atribuiu tudo o que parecia inacessível aos seus desejos – ou que lhes era proibido. Pode-se se dizer, portanto, que esses deuses eram idéias culturais [...] ele próprio quase se tornou um deus [...] 'deus protético' [...](2). Épocas futuras trarão consigo progressos novos e possivelmente de dimensão inimagináveis nesse âmbito da cultura, aumentado ainda mais a semelhança do homem com Deus [...] não esqueçamos que o homem  atual não se sente feliz em sua semelhança com Deus.
            Reconhecemos, portanto, o nível cultural de um país, ao vermos que nele se trata e se cuida metodicamente de tudo o que serve à exploração da Terra pelo homem e à sua proteção contra as forças naturais [...] a beleza, a limpeza e a ordem, ocupam evidentemente uma posição especial entre as exigências culturais. Ninguém afirmará que elas têm a mesma importância vital que a dominação das forças da natureza e que outros fatores que ainda teremos de conhecer, e, no entanto, ninguém gostaria de preteri-las como coisas secundárias.

 (1) Freud remete a satisfação de um prazer infantil em apagar o fogo com o jato de sua urina retratando um nexo entre ambição, fogo e erotismo urinário, em sua obra intitulada: “Aquisição e controle do fogo” (1932).
(2)Para Freud, o poderio tecnológico não serviria como satisfação plena para a felicidade humana, bem como não seria o único objeto de nossos  esforços culturais

Resumo cap. IV
Com relação à sublimação, Freud expõe acerca desse fenômeno psíquico, dizendo que:
[...] Ela também colocará sérias exigências ao nosso trabalho cientifico. Não é fácil entender como se torna possível privar um impulso de sua satisfação. Não é exatamente algo isento de perigo. Caso não seja compensado economicamente, deve-se estar preparado para sérias perturbações [...] a que influencias o desenvolvimento cultural deve sua origem, como ele surgiu e o que determinou seu curso.
[...] em seu passado simiesco, o homem adotou o hábito de formar famílias; os membros da família foram provavelmente os seus primeiros ajudantes. Pode-se presumir que a fundação da família esteve ligada ao fato de que a necessidade de satisfação genital não se apresentou mais como um visitante que surge subitamente e, depois de sua partida não dá mais noticias por longo tempo, mas que ela se alojou no individuo como um inquilino permanente. Isso deu ao macho motivo para manter consigo a mulher, ou, dito de um modo mais geral, os objetos sexuais [...] um traço essencial da cultura: o arbítrio do chefe e pai era ilimitado. A cultura totêmica repousa sobre as restrições que eles precisam impor uns aos outros para a manutenção do novo estado [...] Eros e Ananque (O Amor e a Necessidade) também se tornaram os pais da cultura humana. O primeiro êxito cultural foi o fato de que mesmo um grande número de seres humanos pôde permanecer em comunidade [...] Havíamos afirmado que experiência de o amor sexual (genital) proporcionar ao ser humano as mais intensas vivências de satisfação, de lhe dar verdadeiramente o modelo para toda a felicidade [...] por esse caminho a pessoa se torna perigosamente dependente de uma parte do mundo exterior, a saber, do objeto de amor escolhido e se expõe aos mais extremos sofrimentos quando esse a desdenha ou quando ela o perde devido à infidelidade ou à morte [...] Uma minúscula minoria [...] se tornam independentes do assentimento do objeto ao não colocarem o valor principal no fato de serem amadas, mas no de amar [...] O que produzem dessa forma em si mesmas – o estado de uma sensibilidade terna, imperturbável, equilibrada; [...] o que reconhecemos como uma das técnicas de realização do principio do prazer também foi relacionado de variadas formas com a religião, com a qual deve estar ligado naquelas regiões longínquas em que a distinção entre o eu e os objetos, e destes entre si, é deixada de lado. Certa reflexão ética [...] julga enxergar nessa disposição ao amor universal pelos seres humanos e pelo mundo a atitude suprema à qual o homem pode se elevar [...] nem todos os seres humanos são dignos de amor.
________________________________________________________

Referencias:

FREUD, S. (1930) O Mal Estar na Civilização. Obras Completas, R Janeiro, 1966)


MARCUSE, H. Eros e Civilização, Zahar Editores: Rio de Janeiro, 1955